05 — Esperança
Da vulnerabilidade à esperança: iniciativas que transformam
Casa de Dom Bosco atua há mais de 30 anos na proteção de crianças e adolescentes, desenvolvendo a autoestima e projeto de vida.
Se a desigualdade social faz parte da história de Americana, também existem iniciativas que tentam mudar esse cenário. Em uma cidade onde quase 14 mil crianças e adolescentes vivem em situação de vulnerabilidade social (Cadastro Único), organizações da sociedade civil e políticas públicas voltadas à infância atuam para garantir oportunidades, fortalecer vínculos familiares e ampliar o acesso a direitos.
Bruno Faria é educador social e comunicador da Casa de Dom Bosco, organização social fundada em 1992, desenvolve um trabalho voltado ao atendimento de crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade. Surgida a partir da identificação de crianças em situação de mendicância no município, a instituição busca oferecer espaços de convivência, acolhimento e desenvolvimento humano.
Para ele, o trabalho realizado vai além da assistência imediata. “A missão da Casa de Dom Bosco é acolher, educar e acompanhar crianças, adolescentes e suas famílias, contribuindo para seu desenvolvimento integral por meio de ações socioeducativas, fortalecendo valores humanos, cidadania, protagonismo e a construção de projetos de vida”, afirma.
Atualmente, a instituição, também conhecida carinhosamente por “Casinha”, oferece oficinas culturais, esportivas, recreativas, artísticas e educativas, além de atividades voltadas ao fortalecimento dos vínculos familiares e ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais.
Como a vulnerabilidade afeta a infância?
A realidade das famílias atendidas pela Casinha ajuda a compreender como a desigualdade se manifesta no cotidiano. Entre os principais desafios observados pela instituição estão as dificuldades financeiras, a fragilidade dos vínculos familiares e o acesso limitado a oportunidades educacionais, culturais e de lazer.
Segundo Faria, essas situações acabam impactando diretamente o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Ele diz que entre as principais vulnerabilidades identificadas estão as dificuldades financeiras, fragilidade dos vínculos familiares, acesso limitado a oportunidades educacionais, culturais e de lazer, além de situações de risco social que podem impactar o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.
A vulnerabilidade, portanto, não se restringe à renda. Ela também está relacionada às oportunidades disponíveis ao longo da infância e à possibilidade de construir perspectivas para o futuro.
Quando acolhimento também é proteção
Além de oferecer atividades no contraturno escolar, a Casa de Dom Bosco atua como espaço de convivência e proteção social. O objetivo é proporcionar um ambiente seguro para crianças e adolescentes em fase de desenvolvimento.
“Oferecer um espaço seguro significa proporcionar um ambiente acolhedor, respeitoso e protegido, onde crianças e adolescentes possam conviver, aprender, se expressar e se desenvolver de forma saudável”, compartilha Faria. O trabalho desenvolvido pela instituição também busca fortalecer a autoestima, a autonomia e o protagonismo dos participantes.
Segundo Bruno Faria, as mudanças podem ser percebidas ao longo do acompanhamento realizado com as crianças e adolescentes:
Observamos avanços significativos no desenvolvimento social, emocional e comportamental dos atendidos. Muitas crianças e adolescentes demonstram maior autoestima, autonomia, senso de responsabilidade, capacidade de convivência e fortalecimento de seus projetos de vida.”— Bruno Faria, educador social da Casa de Dom Bosco
Qual o papel da educação?
A tentativa de reduzir desigualdades também passa pelas políticas públicas educacionais.
De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, Americana mantém programas voltados ao desenvolvimento infantil e à permanência dos estudantes na escola, entre eles o Programa Americana pela Primeira Infância (PAPI), o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq) e o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens.
Segundo o secretário municipal de Educação, Vinicius Ghizini, o trabalho realizado durante a primeira infância tem papel fundamental na garantia de direitos. “O grande avanço do PAPI está no sentido de conjugar secretarias e instâncias gestoras de políticas públicas para consolidar os direitos das crianças na cidade, em uma visão e mobilização ampla envolvendo a sociedade civil”, afirmou.
Ghizini destaca a importância das organizações sociais parceiras para ampliar o atendimento às crianças do município: “As entidades parceiras da Educação desempenham um papel de extrema importância para nosso município, na educação e no cuidado das crianças. Essas parcerias fortalecem o trabalho prestado pela Educação, com foco no desenvolvimento integral dos estudantes.”
Os desafios continuam
Apesar dos resultados observados pelas instituições que atuam com crianças e adolescentes, os desafios permanecem.
De acordo com a pesquisa para essa reportagem, a Casa de Dom Bosco aponta dificuldades relacionadas à captação de recursos, manutenção da estrutura física e ampliação das atividades oferecidas. Além disso, as demandas apresentadas pelas famílias atendidas tornam-se cada vez mais complexas. Mesmo assim, a instituição segue atuando em parceria com órgãos públicos, escolas, empresas e outras organizações sociais para ampliar as oportunidades oferecidas à comunidade.
Mais do que combater efeitos imediatos da desigualdade, iniciativas como essa procuram interromper ciclos históricos de exclusão apresentados ao longo desta série de reportagens.
Toda criança e adolescente merece oportunidades para desenvolver seu potencial, sonhar e construir um futuro digno. Investir na infância é investir na transformação da sociedade.”— Bruno Faria, coordenador da Casa de Dom Bosco
Para o coordenador Bruno Faria, o investimento na infância é uma escolha capaz de transformar realidades.
Talvez não exista uma solução única para a desigualdade social na infância. Mas, para muitas crianças, a oportunidade de ser acolhida, ouvida e incentivada a construir um projeto de vida pode representar exatamente aquilo que dá nome a esta reportagem: uma luz no fim do túnel.