03 — Trabalho
Informalidade no trabalho compromete o futuro escolar das crianças
Ciclo da desigualdade se repete por gerações, impacta diretamente na educação e algumas saídas surgem como tentativa de melhora.
A desigualdade social na infância costuma ser associada à falta de acesso à educação, à alimentação ou a oportunidades culturais. No entanto, um dos fatores que alimentam esse cenário está diretamente ligado às condições de trabalho enfrentadas pelas famílias.
A precarização do trabalho, historicamente, é marcada pela instabilidade salarial e informalidade e ausência de proteção social, não afeta apenas os trabalhadores. Seus efeitos chegam às crianças e adolescentes, interferindo na saúde, alimentação, na permanência escolar, nas perspectivas de futuro e nas oportunidades de desenvolvimento.
Segundo o sociólogo Leonardo de Oliveira Fontes, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a informalidade continua sendo uma característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Ouça sobre o histórico aqui.
A informalidade é um problema histórico no Brasil, com cerca de 40% da população no mercado informal. Isso gera instabilidade de renda (a pessoa não sabe quanto vai ganhar no mês seguinte) e ausência de seguridade social. Para as crianças dessas famílias, as consequências incluem a dificuldade de planejar gastos como escola particular, plano de saúde ou cursos, além de muitas vezes precisarem entrar no mercado de trabalho muito cedo, levando ao abandono escolar.”— Leonardo de Oliveira Fontes, sociólogo e pesquisador do Cebrap
A relação entre pobreza e trabalho infantil foi ainda mais intensa. “Historicamente, a primeira coisa era tirar o filho da escola e colocá-lo para trabalhar. Hoje isso ainda acontece, mas em menor escala por conta da maior consciência da importância da educação e dos programas de assistência social”, comenta Fontes.
Relações de trabalho
A realidade observada pelos pesquisadores também aparece nos indicadores do mercado de trabalho.
O primeiro destaque é o número de Microempreendedores Individuais (MEIs). Segundo o Observatório Setorial Territorial Brasil, em 2025, eles representavam 44,6% de todos os estabelecimentos registrados na cidade. Embora o empreendedorismo seja frequentemente associado à autonomia profissional, especialistas alertam que o crescimento dos MEIs também pode refletir processos de flexibilização das relações de trabalho e busca por alternativas diante da dificuldade de acesso a empregos mais estáveis.
Outro fator alarmante presente na pesquisa é a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Em 2024, a remuneração média masculina era de R$ 3.642,46, enquanto a feminina alcançava R$ 2.759,29. A diferença evidencia que as desigualdades do mercado de trabalho também possuem recortes de gênero, afetando diretamente a renda familiar.
Segundo dados do IBGE (2022), o Brasil possui mais de 7,8 milhões de mães solo. Levando em consideração a diferença de renda entre os dois gêneros, a preocupação torna-se ainda mais evidente. Crianças e adolescentes necessitam de investimento de tempo e de dinheiro; se não há uma rede de apoio consolidada, o problema se agrava.
Dados também apontam que o trabalho infantil representou 2% das violações de direitos notificadas nos serviços de proteção em 2025. Embora o percentual pareça pequeno, o indicador evidencia que a exploração do trabalho de crianças e adolescentes continua presente, mesmo com programas assistencialistas e de proteção a eles e permanece associada a contextos de vulnerabilidade econômica.
Por fim, o comércio varejista é o principal empregador local, reunindo 12.716 trabalhadores. O setor concentra grande parte das oportunidades de emprego, mas também é tradicionalmente marcado por salários mais baixos e alta rotatividade.
Os indicadores ajudam a compreender que a precarização não está relacionada apenas ao desemprego. Ela também envolve condições de trabalho que dificultam o planejamento financeiro das famílias e ampliam a insegurança econômica.
Quando o problema chega à escola
A escola é onde os efeitos da vulnerabilidade econômica aparecem primeiro.
Os impactos da precarização tornam-se visíveis, em grande parte, durante a trajetória escolar das crianças. Fatores como baixa renda, fragilidade da estrutura familiar e necessidade de trabalhar precocemente estão entre os elementos que prejudicam o desempenho escolar e aumentam os casos de abandono.
Nesse contexto, a escola frequentemente se transforma em um espaço onde os efeitos da vulnerabilidade econômica aparecem primeiro. Lucimar Ferraz é professora do Ensino Fundamental II na Escola Estadual Professora Antonieta Ghizini Lenhare, em Americana, e conta que a frequência, não realização das atividades, falta de participação nas aulas são os principais prejuízos aos alunos.
Além das dificuldades materiais, a falta de estabilidade econômica afeta diretamente o acompanhamento da vida escolar das crianças.
Há responsáveis que trabalham em até 3 turnos para sustentar a família, mas acaba gerando a falta de acompanhamento da vida escolar do filho.”— Lucimar Ferraz, professora do Ensino Fundamental II
O sociólogo também chama atenção para isso: o desenvolvimento educacional depende não apenas da escola, mas também das condições familiares. “Pais que podem ajudar com deveres, ler historinhas, tirar dúvidas em casa contribuem muito para o sucesso educacional dos filhos”, destaca.
A consequência é um ciclo que tende a se repetir: dificuldades econômicas comprometem a formação educacional, que por sua vez reduz as oportunidades futuras de inserção em empregos mais qualificados.
Entre assistência social e qualificação profissional
Programas de transferência de renda têm desempenhado papel importante na redução dos impactos mais imediatos da vulnerabilidade econômica. Segundo Fontes, iniciativas como Bolsa Família e Pé-de-Meia ajudam a reduzir a evasão escolar e oferecem maior segurança para famílias que enfrentam instabilidade de renda.
Por outro lado, as políticas de assistência, sozinhas, não resolvem o problema da precarização do trabalho. Também é necessário ampliar oportunidades de qualificação profissional.
Em Nova Odessa, um exemplo dessa estratégia é o Centro de Treinamento e Valorização Profissional (CTVP), programa municipal que oferece cursos gratuitos em parceria com o SENAI. De acordo com o Secretário de Desenvolvimento Econômico e Promoção Social, Antônio Alves Teixeira, a iniciativa nasceu justamente da necessidade de melhorar a renda dos trabalhadores.
Veja o espaço a seguir.
O CTVP surgiu da necessidade de melhorar a renda dos trabalhadores. Hoje a cidade tem muito emprego, mas com salários baixos, na faixa de R$ 1.500 a R$ 2.500. O centro foi criado para capacitar as pessoas e possibilitar uma renda melhor.”— Antônio Alves Teixeira, Secretário de Desenvolvimento Econômico e Promoção Social
Segundo o secretário, o público atendido é bastante diversificado. “O perfil é bastante heterogêneo. Há aposentados que buscam uma nova atividade, jovens que procuram o curso de TI (...), e trabalhadores experientes em busca de qualificação”, comenta o professor Antônio (como é conhecido na cidade).
Embora não elimine os desafios estruturais do mercado de trabalho, a qualificação profissional surge como uma alternativa para ampliar oportunidades e reduzir os impactos da vulnerabilidade econômica sobre as famílias.
O futuro das crianças depende do trabalho dos adultos
A desigualdade social na infância não é produzida apenas dentro das escolas ou das comunidades. Ela também nasce das condições de trabalho enfrentadas diariamente pelos adultos responsáveis por essas crianças.
Quando a renda se torna instável, o planejamento familiar se enfraquece. Quando o trabalho é precário, as oportunidades futuras também se tornam mais limitadas.
Por isso, enfrentar a desigualdade infantil passa não apenas pela ampliação das políticas de assistência social, mas também pela construção de caminhos que permitam às famílias alcançar maior estabilidade econômica, acesso à qualificação profissional e condições dignas de trabalho.